Thursday, May 12, 2005

Et Pluribus Unum...

por Jorge Lopes, correspondente em Matosinhos.

Num Benfica-Sporting de outras eras, pouco tempo depois da fundação dos dois grandes de Lisboa. Durante o jogo, um jogador do Benfica agride um adversário. O árbitro não vê e a partida prossegue. Subitamente, Cosme Damião, fundador do nosso clube e um dos seus grandes impulsionadores, interrompe o jogo e faz o que a sua consciência lhe dita: pede ao colega de equipa que abandone imediatamente o terreno de jogo por conduta anti-desportiva.

Alguns (poucos) anos depois: outros tempos, outras éticas... O Sporting Clube de Portugal, que (relembremos) nasceu de uma birra do Conde José de Alvalade, que não concordava com o caminho que estava a ser traçado para o Campograndense e anunciou dramaticamente que iria pedir ao Avô dinheiro para fundar outro clube - é um facto, está publicado na Fotobiografia do SCP). O Sporting, dizia, era um clube rico de meninos mimados; até tinha balneário com água quente, o único da Peninsula Ibérica nessa época. A dado momento, 7 ou 8 jogadores do SLB, tentados pelo adversário, mudam-se para Alvalade. Resultado: alguns sócios do Benfica propõem a extinção do clube, devido à tremenda debandada. Cosme Damião, esse ENORME Benfiquista que merece a nossa gratidão eterna, não concorda e propõe uma solução alternativa: passam-se os jogadores da então denominada 2º categoria para a primeira, os da terceira para a segunda, e o problema fica solucionado. Pouco tempo depois, o remendado conjunto do Benfica vence os meninos de Alvalade (os tais do banhinho quente) por 2 a 1. Muitos consideram que foi nesse preciso momento que comecou a sagrada mística do Benfica...

Anos 60. O Benfica domina o futebol português e encanta a Europa e o MUNDO com a espantosa qualidade da sua equipa de futebol. A dado momento, o Xá do Irão convida a equipa do Benfica para uma digressão que inclui naturalmente a realização de 2 ou 3 jogos. Mas há um problema: Eusébio está lesionado. A resposta veio rápida - ou trazem o Eusébio ou não há digressão (nem dinheiro!!!). Demonstrando mais uma vez o seu grande Benfiquismo e o seu proverbial espírito de sacrifício, Eusébio integra a digressão e participa em todos os jogos.

1968- O Benfica está empatado com o Manchester United, 1 a 1, e faltam 3 minutos para o final do encontro. Trata-se da Final da Taça dos Campeões Europeus dessa época. De repente, Simões ensaia uma jogada estudada: recebe a bola, inicia uma das suas míticas correrias pelo campo e lança Eusébio em profundidade. Como tantas vezes aconteceu, Eusébio domina a bola e corre isolado para a baliza... Todos antevêm o golo que dará o tri-campeonato europeu ao Benfica. Eusébio remata mas Stepney faz uma defesa milagrosa... E o que faz Eusébio? Cumprimenta o guarda-redes adversário, perante a estupefacção geral... O gesto marcou tanto Stepney, que muito recentemente, num documentário sobre o Pantera Negra, o próprio guardião inglês voltou a recordar o episódio...

Inicio dos anos 80. Numa partida em Famalicão, o Benfica vence pela margem mínima. Num determinado lance, um jogador do Famalicão corre isolado para a baliza. Bento está entre os postes e conclui que só há uma coisa a fazer para impedir o golo: lança-se destemido e agarra a bola perante o remate adversário, que entretanto acerta em cheio na cabeça do nosso guarda-redes. Resultado: Bento é suturado com 20 pontos e o SLB conquista uma importante e decisiva vitória.

Anos 80. O Benfica já é campeão nacional, e visita o Vitória de Guimarães. Numa tarde de grande desacerto, o Vitória vence por 4 a 1, com dois golos de Paulo Ricardo. Eriksson, o treinador, assume de imediato as culpas pela derrota, dizendo claramente que foram as suas palavras antes do jogo e sobretudo a sua táctica errada que causaram esa goleada. Muitos anos depois, Veloso conta uma história curiosa ao jornal Expresso. Na realidade, Eriksson não tinha qualquer culpa nessa derrota, os jogadores é que encararam o jogo com excessiva confiança... Conclusão: o nosso treinador defendeu a equipa e ficou com culpas que na realidade não tinha...

Peço humildemente ao Quim, ao Miguel, ao Luisão, ao Ricardo Rocha, ao Dos Santos, ao Petit, ao Manuel Fernandes, ao Simão Sabrosa, ao Geovanni, ao Nuno Assis e ao Nuno Gomes que, quando entrarem em campo no próximo sábado, meditem nestes exemplos de Coragem, Determinação, Força, Espírito de Sacrifício e de UNIÃO. Numa palavra, de BENFIQUISMO.

Et Pluribus Unum...
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